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Redes sociais e a negação da responsabilidade – #BrunoGarschagen

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É inescapável: quem fala a um público cativo, que alimenta uma audiência, tem, em termos gerais, responsabilidade moral e ética sobre o que diz e acerca do que é percebido – e reproduzido por imitação – por quem o segue. Para o bem e para o mal. Pode não ter – e é justo que não tenha – responsabilidade jurídica direta sobre comportamento e ato de integrantes de sua plateia, mas não pode dar de ombros ou minimizar o impacto de sua má influência.

Essa negação da responsabilidade está presente em vários ramos da vida em sociedade, e não é de hoje. Por sua amplitude e diversidade sociológica, as redes sociais permitem verificar o problema como a uma fratura exposta do fêmur. Desde os de menor àqueles com maior audiência, o que mais importa – parece – é antes chamar a atenção seja lá qual for o expediente necessário para fazê-lo, e aqui a agressividade cumpre o seu papel instrumental.

O fato de a maioria ser jovem de idade ou, quando adultos, juvenil de mentalidade colabora para a imaturidade revelada pelas opiniões categóricas sobre todo e qualquer assunto. Quanto mais ignorante acerca de um tema, maior o nível de violência no ataque e contra-ataque contra algo ou contra alguém, o que se demonstra pela profusão de palavrões e insultos. Há quem tenha feito carreira e dinheiro como cupido desse casamento entre estupidez e xingamento.

O que me interessa particularmente por aquilo que evoca é a irresponsabilidade que se impõe quando da instrumentalização da violência no discurso escrito ou em vídeo. Pode ser – e muitas vezes o é, de fato – nas mãos de um criador inteligente um recurso eficaz para atrair atenção para aspectos importantes de um problema. Por ser instrumento singular e eficiente, entretanto, certa agressividade verbal, se usada imoderamente e regularmente, perde seu efeito, assume protagonismo e se torna sujeito da ação. Tanto pior quando esse comportamento, convertido em hábito, influencia uma parcela numerosa de jovens, muitos dos quais carecem de famílias para equipá-los com escudos morais e éticos contra a estupidez reinante.

Outro dia mesmo youtubers famosos sabe-se lá Deus por qual razão tiveram suas opiniões do passado recente desenterradas e julgadas em praça pública, com a célere e máxima condenação pelo júri popular. Como não estamos a falar de um devido processo legal, com ou sem razão, a massa agiu como sempre o fez em épocas e sociedades distintas: cabeças devem rolar, sangue deve jorrar.

Esses youtubers que viraram alvos circunstanciais – e tantos outros que ainda não entraram na linha de tiro -, foram, eles próprios, agentes ou colaboradores desse estado de excitação e agressividade permanente que caracteriza as áreas mais movimentadas das redes sociais. Os insultos que destinaram a terceiros ao longo de suas trajetórias ajudaram a construir um ambiente fértil para o tipo de reação da qual foram vítimas, eles que, desgraçadamente, operam há anos como influenciadores digitais de milhares de crianças e jovens.

Esse episódio recente só expôs a parte mais visível de um problema maior, que é, justamente, a influência que eles exercem sobre crianças e jovens moralmente indefesas sem terem responsabilidade, maturidade, conhecimento, ou sequer uma das quatro virtudes cardeais: prudência, justiça, temperança, fortaleza.

E aqui entra a responsabilidade dos pais, que não podem terceirizá-la, como parece ter se tornado o costume dos novos tempos. Se a tecnologia existe, e as redes sociais estão presentes na vida de crianças e adolescentes, cabe ao pai e à mãe educar seus filhos para neles incutir as devidas proteções éticas e morais. Protegidos por esse que é o mais poderoso escudo que existe, a orientação familiar, poderão até se divertir com seus influenciadores digitais de estimação, como quem se diverte com um animal doméstico, mas sabendo que não devem tê-los como modelos para absolutamente nada. A advertência também vale para os adultos que, em tempos de interesse político, se deixam influenciar por quem escreve ou fala sobre política sem apresentar uma única virtude cardial.

Você pode questionar se é justo ou adequado cobrar de influenciadores digitais que sejam uma boa influência para o seu público. Mas se eles são qualificados, identificados e prestigiados como influenciadores digitais, não devemos cobrar absolutamente nada deles, que ganham fortunas para disparar estupidez com velocidade e eficiência de uma M4 Carbine Commando?

Na vida social, profissional, na política, no comentário político ou cultural, todos somos responsáveis pelas nossas opiniões e atos. Quanto maior a influência, maior a responsabilidade, que é uma aquisição imediata, não uma escolha. Quem cultiva a violência como método, um dia será vítima da armadilha que ajudou a montar – e não adianta recorrer ao mimimi. Porque, ao contrário do verso famoso, a mão que apedreja não afaga: voltará a apedrejar.









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publicado no site gazetadopovo.com.br