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O poder e a sedução da “nova era” – #PauloCruz

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“Não me tente! Não ouso tomá-lo [o Um Anel], nem mesmo para mantê-lo a salvo, sem uso. O desejo de controlá-lo seria grande demais para minhas forças. E vou precisar delas. Grandes perigos me esperam”. (Gandalf para Frodo em “o Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel”, de J. R. R. Tolkien, Martins Fontes)

A tentação que o poder exerce sobre nós é um dos mais instigantes temas, não só literários, mas também da filosofia. Não importam as intenções; tanto aqueles que desejam, clara e abertamente, fazer o mal e dominar, tiranicamente, a todos, quanto aqueles que, de posse do poder, julgam possuir abnegação suficiente para, através dele, fazer o bem, acabam por sucumbir. E pela experiência histórica (e também literária), o poder nas mãos de quem deseja fazer o bem pode causar muito mais estrago. O modo peculiar como as pessoas cheias de boas intenções são seduzidas e acabam por tiranizar àqueles que deveriam beneficiar, é notório e assustador.

Há o exemplo literário espetacular de O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, cuja citação em epígrafe mostra o pavor de Gandalf, o mago, diante do pedido de Frodo para que ele fique com o Um Anel. Outra cena marcante é quando Boromir sugere que eles usem o Anel para destruir o poder do Mal: “Por que não considerar que o Grande Anel chegou às nossas mãos para nos servir exatamente nesta hora de necessidade? Controlando-o, os Senhores Livres dos Livres podem certamente derrotar o Inimigo”.

Ao que Elrond, o elfo e senhor de Valfenda, lhe responde: “A força que tem, Boromir, é grande demais para qualquer um controlar por sua própria vontade, com exceção apenas daqueles que já têm um grande poder próprio. Mas, para estes, o Anel representa um perigo ainda mais fatal. Apenas desejá-lo já corrompe o coração. […] enquanto permanecer no mundo, representará um perigo mesmo para os Sábios. Pois nada é mau no início. Até mesmo Sauron não era. Tenho medo de tomar o Anel para escondê-lo. E não vou tomá-lo para fazer uso dele”.

Na obra-prima de Tolkien a tentação do poder é uma constante, sua sedução é uma ameaça aterradora e o desafio de todos é resistir e destruir o poder que pode destruí-los. Mas há uma obra na qual o poder, efetivamente, faz suas vítimas em nome de um ideal de liberdade – não através de um objeto, mas de uma insurreição revolucionária. Trata-se da fábula A revolução dos bichos, de George Orwell, publicada pela primeira vez em 1945, em plena Segunda Guerra Mundial. Essa pequena história de animais antropomórficos é considerada, por C. S. Lewis, melhor que a mais conhecida – e volumosa – obra de Orwell, a distopia 1984: “Paradoxalmente, quando Orwell transforma todos os seus personagens em animais, ele os torna mais humanos”, diz ele em seu ensaio sobre o autor, presente na obra Sobre histórias (Thomas Nelson).

Numa fazenda situada na Inglaterra, os animais, seguindo os ensinamentos de um velho porco chamado Major (uma clara alusão a Marx) – que morre logo no início do livro após um discurso no qual lhes conta um sonho que tivera, de como seria o mundo “quando o Homem desaparecer” –, se rebelam e tomam a fazenda de seu proprietário, Sr. Jones, instaurando um regime que prometia ser de liberdade e igualdade plenas. O comando da revolução recai sobre os porcos, “reconhecidamente os mais inteligentes entre os animais”. Após organizarem a doutrina do velho Major, o Animalismo, os porcos Bola-de-Neve e Napoleão preparam a tomada de poder, que “ocorreu muito mais cedo e mais facilmente do que se esperava”.

Tendo se livrado de todos os humanos da fazenda, os porcos, que tinham aprendido a ler e escrever, resumiram o Animalismo em Sete Mandamentos que todos deveriam seguir:

  1. Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo.
  2. Qualquer coisa que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo.
  3. Nenhum animal usará roupas.
  4. Nenhum animal dormirá em cama.
  5. Nenhum animal beberá álcool.
  6. Nenhum animal matará outro animal.
  7. Todos os animais são iguais.

Curiosamente, os porcos, em sua posição de liderança, “não trabalhavam, propriamente, mas dirigiam e supervisionavam o trabalho dos outros”. Ou seja, o regime igualitário demonstrou sua falha logo no início, quando aqueles considerados intelectualmente mais capazes passaram a ter proeminência sobre os demais. Ou seja, tudo ia bem até que os porcos começaram a tirar vantagem de sua posição – primeiro comendo mais do que os outros quando tudo deveria ser repartido igualmente entre todos, depois indo morar na casa-grande quando a resolução era que “nenhum animal jamais deveria habitá-la”; e assim por diante, desobedecendo a cada um dos mandamentos que eles próprios tinham estabelecido.

Não demorou muito para que tal atitude descambasse numa tirania semelhante – senão pior – à perpetrada pelos humanos. Napoleão deu um “golpe de estado”, tornou-se o soberano e, juntamente com seu Ministro da Propaganda, o porco Garganta, terminaram por se aliarem aos humanos, a andar sobre as duas patas traseiras e resumindo todos os Sete Mandamentos numa única sentença: “Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que os outros”.

A revolução dos bichos, apesar de ter sido escrita como uma crítica direta ao regime stalinista – como afirma o próprio Orwell –, trata-se de um contundente libelo satírico contra todo e qualquer autoritarismo e/ou totalitarismo, cujos exemplos abundam na história recente.

Voltando, filosoficamente, ao tema do anel, Platão já alertava para a sedução do poder ao narrar a lenda de Giges, em A República. No livro II da obra, aquele que por muitos (e por mim) é considerado o maior filósofo de todos os tempos, conta a história de um pastor, habitante da Lídia (Ásia Menor), que ao entrar numa fenda aberta no chão por um terremoto, encontra um cavalo de bronze, oco, e dentro dele um cadáver com um anel de ouro no dedo. Ele pega o anel. Logo depois, durante uma reunião de pastores, descobre que ao virar o engaste do anel em direção à parte interna da mão, tornava-se invisível.

Diz Platão: “Tendo observado estes factos, experimentou, a ver se o anel tinha aquele poder, e verificou que, se voltasse o engaste para dentro, se tornava invisível; se o voltasse para fora, ficava visível. Assim senhor de si, logo fez com que fosse um dos delegados que iam junto do rei. Uma vez lá chegado, seduziu a mulher do soberano, e com o auxílio dela, atacou-o e matou-o, e assim se assenhoreou do poder”. E arremata: “Se, portanto, houvesse dois anéis como este, e o homem justo pusesse um, e o injusto outro, não haveria ninguém, ao que parece, tão inabalável que permanecesse no caminho da justiça, e que fosse capaz de se abster dos bens alheios e de não lhes tocar, sendo-lhe dado tirar à vontade o que quisesse do mercado, entrar nas casas e unir-se a quem lhe apetecesse, matar ou libertar das algemas a quem lhe aprouvesse, e fazer tudo o mais entre os homens, como se fosse igual aos deuses. Comportando-se desta maneira, os seus atos em nada difeririam dos do outro, mas ambos levariam o mesmo caminho”. (Platão, A República, Fundação Calouste Gulbenkian)

A história de Giges, inclusive, é uma das possíveis inspirações de Tolkien para o seu Um Anel – que também dava o poder de invisibilidade.

Que estas referências nos sirvam de alerta, pois, neste início de um novo governo em nosso país, cercado de promessas de “um novo tempo para o Brasil” ou até de uma “nova era”, e que tem introduzido às esferas do poder um número considerável de outsiders que nunca tiveram de lidar com a complexa (e corrupta) estrutura de poder brasileira, todo cuidado é pouco.

 

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publicado no site gazetadopovo.com.br